Romance do Tropeiro Doido Aureliano de Figueiredo Pinto
Já velhito, não perdia uma tropeada comprida. Com seus seis baios-ruanos, bem tosados, cola curta, os cascos bem groseaditos, era um desses peão-de-tropa que os capatazes não deixam...
Com seu chapéu de aba larga, e o poncho que era um galpão, e com todos os pertences para a lida forte e dura - desde avios de chimarrão, maneadores de porteira, até os trapos ensebados prá empeçar fogo, chovendo.
Um quero-quero prá o sono! E ademais sem uma queixa, ou dúvida às ordens dadas. Vaqueano como ninguém de rondas , pastos e aguadas, era um desses peão-de-tropa que os capatazes não deixam...
Um dia a sua comitiva afundou para as Missões, a apartar gordo em Garruchos no velho Juca Ramão.
E no primeiro rodeio, logo um novilho afamado, ficado de muitas tropas levantou as aspas claras direito ao fundo do campo.
Mas o velhito era desses que os capatazes não deixam... Estendeu o baio-ruano no plaino de pedregulho.
Levantou o treze-braças que fez um Vuuu!...no ar parado. E quando o laço estirou, no instante mesmo do golpe o baio fincou a testa! O velhito que atendia boi, ilhapa e cinchador (nunca este ruano rodara! e o velhito, um saidor!) também de testa se foi..
Ficou roncando, mortito, e quinze dias roncou. E lá, três meses esteve num hospital das missões, onde o Dr. Zé Gaspar que em moço fora tropeiro, o atendia com a ciência e pena no coração...
E quando aos pagos voltou parecia o homem de sempre -ágil, vivo, despachado! Servidor e sempre pronto prá uma tropeada comprida. Só diferente na prosa porque o juízo perdera...
No inverno lidava em guascas, e em madeiras de carreta, ensinando ao seu netito, como se faz a presilha ou se remata um botão.
Como se prepara a lonca e o romaneio de um laço. Como se arqueia um canzil ou se volteia uma canga. Como se retova um par de bem feitas boleadeiras. Como se prepara um couro ou desquina um maneador. E nas conversas com o aluno, era tudo mais por senhas, e idiomas de meia-língua que os outros pouco pescavam.
Ali por fins de setembro, ou nos começos de outubro, ia à invernada e trazia os seus seis baio-ruanos.
Uma semana levava tosando, groseando os cascos, adelgaçando os seus pingos.
Já pronto para a tropeada de todos se despedia... Agora ninguém mais ria da loucura do velhito. Com seis ruanos por diante, ia à coxilha defronte. Lá, durante horas e horas trabalhava como um taura: - Apartava. Refugava.
Coava. Contava a tropa e a ajeitava na pastagem, com o flete lavado em suor! - Tudo de imaginação! como piazito brincando de apartes de faz-de-conta...
Lá ia o neto buscá-lo para o almoço e o descanso. Ele acedia mas antes logo pedia ajutório para estender a tropa n'água. Porque é um trabalho a preceito largar a tropa na aguada...
De tarde, mudado o pingo, o churrasquito na mala, fazia a tropa marchar até que, entre duas-luzes, ao tranco, com calma e jeito, se fosse cerrando a ronda...
De novo o guri o buscava e afinal o convencia que a peonada era boa, podia rondar sem ele. Podia ir pousar nas casas... Se a noite não tinha lua ele voltava à morada.
Mas nas noite de luar claro, nas noites de lua cheia, nem o neto o demovia! Rondava a coxilha, ao tranco, às vezes meio cantando, até que clareasse o dia.
E foi numa dessas noites de luar prateando as lagoas, que amanheceu morto, lá no alto. Com a rédea atada no pulso, largo chapéu sobre os olhos e o ruano olhando seu dono.
Primeira e única noite que o taura dormiu na ronda... |