ROMANCE DO PALA BRANCO
Apparício Silva Rillo
I Corria de boca em boca a notícia do fantasma que a negra do Gumercindo viu passar naquela noite noite fria... mês de agosto num galopito espichado sacudindo um pala branco.
E pelos ranchos do Pago, todos falavam no caso...
Pros grandes, as vezes pilhéria à visão da negra velha pra criançada, um reforço no mundo da assombração: Lobisomem... Diabo Rengo...
II
No bolichinho do Gringo a gaita parou de soco e estremeceu num repique como se o próprio gaiteiro morresse do coração...
A tava embicou no barro e virou desgovernada num baita culto azarado.
O Jovino interrompeu o gesto da devoção e a canha veio de volta bem pelo canto da boca.
Um índio de pouco sangue bombeou o furo pequeno da janelinha dos fundos e resvalou – de mansinho como se a pouca vergonha lhe despistasse a menção.
Enfim... o dito << fantasma>> já quase um mito formado.
E aqueles olhos sestrosos lhe cruzaram alto a baixo num misto de anseio e medo de desvendar-lhe a figura.
III
Por baixo das abas grandes de um chapéu de feltro negro sobressaía a melena que lhe batia nos ombros.
Os fiapos da barba negra beiravam a seda do lenço um lenção da mesma cor.
Camisa gola redonda de um gorgurão mui serrado. Quilote de um xadrez grande com algum remendo extraviado.
O couro lenhado em brejos das botas de cano longo cobrindo toda a canela.
Na cintura o << trinta e oito >> com o cabo todo marcado atravessado por baixo da fivela em ferradura.
E no contraste das vestes, a seda branca do pala acenando soberano como bandeira de paz...
Da paz... que sempre sonhou.
Também mui brancas choronas, rosetas grandes prateadas que em muito aperto arrastou.
O pingo – um gateado-pampa por certo – venta-rasgada Embora um tanto estropiado.
IV
Houve um silêncio total, assim como um velório onde os olhares se cruzam no rito contemplativo mirando a calma do morto.
Sempre bombeando por cima foi penetrando na venda naquela passada lenta de << cuera profissional >>.
Sem buenas tarde... sem nada, parou defronte ao balcão. Talvez fizesse questão de ignorar os presentes.
Deu uma cruzada de olho num gesto longo... mui calmo como se medisse a palmo por riba das prateleiras.
E quebrando a calma do ambiente onde mermara a conversa, foi pedindo ao bolicheiro: um naco de fumo bueno, duas latas de pescada, despos... um liso da branca pra refrescar a memória.
Cambiou-se sem mais delongas sempre bombeando por cima naquela passada lenta de cuera profissional.
Montou no pingo e partiu.
Na porta – o bando curioso ao longe – o pala acenando como bandeira de paz.
Agora não o fantasma só pala branco... no mais.
V
Por entre o sombreado triste de esconderijo do mato, seus pensamentos vagavam num entrechoque brutal.
E à noite sempre lhe vinha um pouco mais de sossego fitando o mundo de estrelas como um fim de fogueiras cintilando no Universo. E depois adormecia...
E ele que tantas vezes abrira caminho à bala ali estava encurralado.
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