ROMANCE DO MOURO VELHO Apparício Silva Rillo
Despionei-me, da última fazenda que nem para patieiro eu já servia. Velho, sofrido, sem china para arrimo, eu sou uma luz de boieira ao fim do dia.
Deixei atrás, meus braços de tronqueiras toda uma dádiva de nervos e de músculos. Madrugadas que fui, sóis que gastei, só me restam cansaços e crepúsculos.
Arreio ...as costas, meu cavalo morto, carrego sombras num surrão... de nadas. Gaúcho a pé, barbudas alpargatas, rastreio o pó vermelho das estradas.
Era mouro o meu flete, o que morreu. Quando a estrela morria no poente olhou para a querência de onde veio e o sol sangrou-lhe o coração... de frente.
Passei-lhe as mãos na tábua do pescoço, acariciei-lhe o veludo do focinho e recolhi seu último relincho que morreu como um clarim pelos colmilhos.
Era tudo dos nadas que não tive este mouro das minhas excelências, basteriado de andar batendo cascos pelos rumos de todas as querências.
Nem um facão pra cortar dois galhos e plantar uma cruz para o meu mouro, que só tinha o seu dono por amigo e o ossamento a lhe estaquear o couro.
Mas há de haver um céu para os cavalos, onde renasçam para ser potrilhos, onde galopem livres dos arreios, com relinchos sonando nos colmilhos.
Arreio as costas, meu cavalo morto, por sobre os olhos, a sombra do chapéu, enxugo ao vento lágrimas de macho enquanto o mouro galopa para o céu.
Solito agora, estradeio léguas, sofrendo ao sol um patacão de ouro, esperando que a morte me convide para a querência onde levou meu mouro...
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