Romance do injustiçado Apparício Silva Rillo Como talhado em pau ferro o carão de traços duros. O bigodão mal cuidado desabando sobre os lábios - par de assas mui cansadas de um alvejão de cor negra. Melena de muitos meses sobrando por sobre a gola e o colorado de um lenço sangrando em riba do peito.
A bombacha de dois panos remangada sobre a bota. Os cravos da espora grande mordendo a franja do pala bem atirado pra trás. No fivelão da guaiaca luzindo em campo de prata o ouro das iniciais.
Sobrando da faixa negra que lhe abarcava a cintura o cabo entalhado em chifre da xerenga de dois palmos. Um relho trança-de-oito vinha arrastando a soiteira dependurada do pulso pelo tento do fiel.
Pela rédea o azulego - se via que flor de flete - malgrado a estampa judiada de pingo que muito andou. Foi assim que a muitos anos bateu nas casas da estância o celebrado bandido chamado Estácio Ariju ...
Bandido para a justiça - por seu respeito se explique, que as razões de um índio macho nem sempre são bem aceitas pelos códigos e leis ...
Bandido - por ter sangrado, igual de raiva e de armas a um cujo que desonrara a mais moça das irmãs.
Bandido – porque apertado entre as brigadas e a enchente, já não podendo escapar, por debaixo da fumaça matou um dos quatro praças que lo quiseram carnear.
Bandido – porque seguido por milicada sequiosa de uma vingança total, fugiu da estrada real para o mais fundo dos matos, carneando chibos alheios para o churrasco sem sal.
Bandido – porque enleiado na rudez da ignorância fez da fuga e da distância seu modo de mal viver. Porque quis a sina ingrata que nunca tivesse plata pra pagar um bacharel. Bandido – porque não teve a exemplo de tanta gente cancha livre e costas quentes a sombra de um coronel ...
E assim, viveu como bicho pelos fundões das fazendas, a carregar a legenda de perigoso e assassino. Chimbo, bagual, teatino, com famas de touro alçado, tragando o duro guisado que lhe picava o destino.
Nalgum bolicho de estrada boleava a perna, sestroso, pelos domingos de tarde - para um cantil de cachaça, meio quilo de bolacha, mais um punhado de sal.
Olhava de olhos compridos para o mais das prateleiras, - pra o bom fumo amarelinho, pros maços de palha buena, para a erva de Palmeira num saco sob o balcão. Mas vinha curto o seu cobre, mal e mal pras precisão, o bolicheiro era pobre e ele não era ladrão…
E a polícia no seu rastro malgrado o tempo passado. Perseguido e acuado por plainos e socavões. Sempre mudando de pouso pra confundir os milicos, que em manhas, sim, era rico, por evidentes razões.
Cansou-se um dia afinal, daquela vida de bicho, daquele estranho cambicho com as más volteadas da sorte - de não ter rumo nem norte, não ter descanso ou sossego.
E assim bateu cá na Estância naquele entono de taita que manda parar a gaita por ter cansado do baile!
E o patrão - velho buerana, pediu o Estácio Ariju que mandasse algum xiru levar ao povo um recado: - Que viesse o delegado, que ele afinal resolvera, ele o “bandido”, ele o “maula”, trocar o largo dos campos pelo encolhido das jaulas.
Nas suas noites de insônia entre um pelêgo e as estrela, conseguira convencer-se que, sendo justa, a justiça, lhe entenderia as razões, e lhe daria, a lo muito, poucos anos de condena ou mesmo a absolvição.
Foi então que a meia tarde num fordecão atochado deu na estância o delegado com quatro praças por quebra para formar o sarilho. Quatro fuzis embalados, quatro dedos no gatilho.
Então Estácio Ariju tomou seu último mate… no mesmo entono de guapo que era o seu jeito de sempre, arrastou a espora grande na direção dos milicos.
- Nem mais um passo ! - Gritou-lhe num gritinho de falsete, o delegado, um joguete nas mãos do chefe local. - Levante as mãos! Largue as armas - Teje preso, seu bandido seu metedor de pendenga!
E o Ariju, decidido a entregar-se sem briga, levou a mão na barriga pra descartar a xerenga ...
- Cuidado! Berrou um praça.
Tremeram cinco covardes e na calma dessa tarde berraram quatro fuzis.
Quatro sóis de fumo e sangue se lhe acenderam no peito.
Foi desabando aos pouquitos de frente para os milicos no jeito de um velho angico caído junto às macegas que lhe invejavam o entono.
E já quase adormecendo para o derradeiro sono - Quatro vezes mal ferido - teve ainda tino e ouvido para escutar um dos cinco que lhe gritava: - Bandido!
Caiu olhando pro céu, tinto de sangue e de luz.
Dava-lhe o sol pela frente como a incendiar-lhe a figura - a mais rica das molduras para enquadrar um valente. |