A AVÓ DE TODAS AS SANTAS
Adão Quevedo da Silva Filho
Dona Isaura já beirava um século um século de existência, gastou toda bem querença com filhos, netos, bisnetos; dividiu tantos afetos que pra si apenas tinha uma pequena pontinha do tempo que lhe restava.
Ainda sobrava ternura nos seus olhos tão humanos. Deus, talvez pôs por engano uma santa aqui na terra. Até Deus que nunca erra, vendo sua alma branquinha, deixou que ficasse velhinha, cuidando lá das alturas.
Ela sabia os segredos da antiga sabedoria: é o homem tolo quem cria seus abismos e tormentas e quanto mais ele inventa menos conhece a si mesmo e deixa escorrer, a esmo, a vida por entre os dedos.
Por isso ela compreendia as inquietudes das almas, quem não decifra seus traumas não encontra porto algum e vive a afundar, um a um, seus navios de incompreensão juntando na contramão seus tesouros sem valia.
O que mais me desencanta é saber que qualquer dia vou encontrar ali, vazia, a cadeira de balanço... Não mais os seus olhos mansos, nem a sua face serena, só a lembrança terrena da avó de todas as Santas.
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