O HOMEM QUE APOSTAVA
Texto de Luiz Coronel

     Que era homem educado, lá isso era. Também cria dos Tavares, só podia sair de tratos maneirosos. Acontece, porém, que, aos verdes campos, preferiu as verdes mesas de carteados. Outro vício não tinha, afora apostar até a mãe, se apostador houvesse.

      -Aposto que o Dr. Naziazeno vai discursar no enterro.
- Aposto que o Dr. Fico ganha essa eleição.
Tudo era aposta.

A noite já era crescida em horas e o Tavares aquecia o banco num joguinho sofrido, nos altos do Comercial, quando o Dr. Marcírio testaviou na mesa.  Caiu duro e fulminado, e que Deus o tenha em sua glória.

Quem de nós leva a noticia lastimosa para Dona Cristina Magalhães, esposa do parceiro ora falecido?

       Outra não foi a sábia escolha. O Tavares.
Lá se foi ele circunspecto pela madrugada fria.

       A mãozinha de ferro da porta começou delicada para retumbante, até que se abriu a porta com a senhora maldesperta, arrumando o cabelo sob o lenço de seda.

       - Boa noite ou bom dia senhora. Desculpe o adiantado da hora. Sou o Belico Tavares e, por certo, a senhora deve ser a viúva do Dr. Marcírio Magalhães, não?
Aflita, a senhora contestou pela metade a madrugadeira pergunta:
- Sou Cristina Magalhães, viúva não!
- Quer apostar?