O CAVALO VERDE
  Texto de Luiz Coronel 

 

          Joveniano Centeno era flaco(1) de corpo e largo de alardes.
Num cair de tarde de quase janeiro, apeou na venda do Noquinha e foi molhar a palavra, como era de costume. Pé no cepo, cotovelo na mesa, por lá foi se ficando numa mais outra.

         Quando o lusco-fusco já aquietava os cuscos(2), colocou a bota fora do portal e se deparou com o seu cavalo tordilho, pintado de verde. Respirou fundo e entrou na venda, se plantando embaixo do lampião com pose de quero-quero.

      - Se tem mãe de respeito, quem fez o desaforo que se apresente - gritou Jovenciano.

      Lá do fundo da venda, caminhando devagar como quem trafega atoleiro, vem vindo o Salustiano, um aspa-torta(3) com dois metros de altura e "uma feiúra de partir espelho". Vinha limpando as unhas com uma carneadeira luminosa.

     - Pois o matungo na cor dos campos te serve melhor de montaria, seu maturango(4) - falou e disse o desabusado.

    "Bêbado de susto" e atropelo, Joveniano teve apenas tempo de aliviar os acontecidos.

- Epa, epa - retrucou. - Eu só vim avisar que a primeira demão já tá seca!

(1) flaco -  fraco
(2) cuscos - vira-latas
(3) aspa-torta - individuo turbulento, desordeiro  
(4) maturango - que monta mal