O LEÃO BAIO
Texto de Luiz Coronel
Para uns, pavio curto.
Faca na bota, melhor definiria Don Cezimbra. Era homem de pausadas prosas, roncantes mates e seqüentes tragos.
Homem só, com sua valentia incontestada.
Tinha aquele jeito de quem está sempre pressentindo o perigo.
Um dia como qualquer outro dia, Don Cezimbra voltava pela estrada vicinal na direção das Palmas quando se deram os fatos narrados nos pormenores.
O sol já se espreguiçava, cansado de vagabundear pela relva, quando o campeiro passou pela fazenda do Severino Collares.
"Os moirões perfilavam-se campo afora e eram como gente parada, quieta, escutando o silêncio grande da solidão."
A montaria era do mais alto gabarito e intimidade, uma malacara(1) que já conhecia o rumo das casas por conta própria.
Cavalheiro criado no lombo dos cavalos, iam a trote, animal e homem, uma coisa só.
Não havia aquele saracoteado dos artistas de novela.
A viagem ia tranqüila, uma purinha(2) no bolso e rédeas nas mãos.
Mas de repente, o malacara se empina e relincha com denúncias de estripulia.
Faiscando nas moitas os olhos do leão baio.
Um arrepio subiu das pernas ao espinhaço do guerreiro.
- Se disparo, o bicho janta a anca da montaria e come a minha perna de sobremesa, pensou o taura.(3)
Então era enfrentar o bicho.
Com movimentos calmos, olhos nos olhos, Don Cezimbra levou à mão a cintura em busca do boca de fogo. E nada do trintoitão.
Quem sabe a faca de cabo de prata? na gauiaca(4) só encontrou a virilheira de picar fumo.
O combatente desceu do cavalo, atou as rédeas num galho de uma corunilha, chuleando o famigerado.
E ficaram os dois, frente a frente, como bandido e mocinho nos velhos faroestes.
Foi quando Don Cezimbra olhou para o céu e deu o "brado retumbante":
- Deus, se tu estás com o leão, faça com que ele devore primeiro a minha cabeça. Não quero assistir a essa comilança. Se estás comigo, que eu acerte essa lâmina no sangradouro do bicho-fera. Agora, se não estás com nenhum dos dois, senta naquela pedrinha ali e te prepara para assistir a uma das peleias mais tinhosas que já aconteceram por estes matos.
(1) malacara- cavalo com uma mancha branca na cara
(2) purinha - cachaça sem adereços ou mistura.
(3) taura - gaúcho valente, arrojado
(4) guaiaca - pequena bolsa que adere ao cinturão |