72 OVELHAS DO EMÍLIO

Esta aconteceu em 1954, quando meu pai arrendava a fazenda da Ingá, no Inhanduí.

        Durante a esquila caiu um toró a noite, pegando umas quinhentas ovelhas recém-tosadas.

        Na tarde anterior, o capataz, seu Janguinho Mota, mandara colocar as ovelhas recém-tosadas em um piquete, que ficava a uns 500 metros da sede e que era bem abrigado.

        No chimarrão, ao clarear o dia, meu pai comentou com o seu Janguinho:

        - A chuva foi braba; periga ter nos matado um lote de olvelhas.

        - Agora no mais já ficamos sabendo e é só deixar o Emílio chegar com a recolhida, eu encilho e vou lá ver. Diz  ser   Janguinho.

        Emílio era um negrinho de uns oito anos, criação de seu Janguinho, filho de um cabo de Honório Lemes e natural da Serra do Caverá.

        Quando chegou Emílio com os cavalos, meu pai lhe perguntou:

        - Quantas ovelhas morreram, Emílio?

        Este prontamente respondeu:

        - Duas.

        Meu pai ficou satisfeito e comentou com seu Janguinho:

        - O prejuízo foi pequeno, pois o Emílio me disse que morreram só duas.

        Rindo seu Janguinho diz:

        - Não quer dizer nada, seu Rivadávia, porque o Emílio só sabe contar até um. Sendo mais, ele diz que é dois.

        Efetivamente, haviam morrido 72 ovelhas.